Um Problema Central na Controvérsia Puritana

Ian Murray 

Em 1522 na Manor House de Sodbury, em Gloucestershire, William Tyndale estabeleceu o princípio fundamental do protestantismo Inglês quando confrontou os eclesiásticos que se reuniram ao redor da mesa de jantar de Sir John Walsh com aquilo que John Foxe chama de “A Escritura Aberta e Manifesta”. Quatro anos depois o mesmo princípio passou a ser aplicado para impregnar ou levedar a nação inteira com a chegada secreta dos primeiros exemplares do Novo Testamento impressos em Inglês, vindas de Flanders. Seu tradutor, Tyndale, já então um exilado procurado pela lei, justificou sua ação ilegal nos seguintes termos: “Percebi por experiência própria que é impossível firmar as pessoas leigas em qualquer verdade, a menos que pelas Escrituras claramente abertas aos seus olhos (…). Deus estabeleceu uma regra nas Escrituras, sem a qual nada se pode fazer, nem mesmo mover um fio de cabelo, sem ser abominável aos olhos de Deus”. 1 

Pagando o alto preço de grande sofrimento o Protestantismo se estabeleceu na Grã-Bretanha, não devido a grandes estatísticas ao conhecimento de seus aderentes, mas porque através das Escrituras rios de vida espiritual fluíram, de modo que ao invés dos ensinamentos e tradições de uma igreja corrupta, homens e mulheres estavam ouvindo as palavras do Deus vivo. Quando um amigo de Tyndale, John Rogers, foi julgado e condenado ao martírio, um dos seus juizes católicos declarou: “você nada pode provar pelas Escrituras: As Escrituras estão mortas e requerem eloquência de exposição”. Ao que Rogers exclamou: “Não, não, as Escrituras estão vivas”. 

É esta convicção que explica porque os cristãos no começo da Reforma agüentaram o que agüentaram e persistiram tanto em traduzir e divulgar a Bíblia: Eles sabiam que só nelas estão as palavras da vida eterna e que o homem só pode viver na medida  em que recebe cada palavra que procede da boca de Deus. As Escrituras são a voz de Deus, e se somos ou não o objeto das bênçãos ou maldições de Deus pode ser experimentalmente determinado ao verificarmos se nós obedecemos e reverenciamos o que está escrito nas Escrituras ou não. Estar sem as Escrituras é estar sem Deus e sem esperança no mundo. Além disto, as Escrituras são o único e infalível registro que temos da vontade de Cristo. Antes da Reforma os ingleses não tinham qualquer meio de afirmar se algo teria ou não a aprovação de Cristo, porque, como escreveu John Hooper em 1547, “ele que havia buscado em todas as igrejas da Inglaterra antes dos dezesseis anos, não teria encontrado uma única Bíblia”. Foi somente quando as Escrituras foram re-abertas que o Anti-Cristo, o qual havia até então se mantido sob o disfarce do “o melhor cristão”, foi descoberto em possessão da Igreja. E quando esta Igreja apóstata mostrou sua ira contra seus assim chamados Reformadores, aqueles que sofreram pela sua fé nas Escrituras não tiveram dúvida de que estavam dando suas vidas pela causa do Senhor Jesus Cristo.

A questão da autoridade da Bíblia levantada no começo da Reforma Inglesa não estava firme de imediato. Nem quando havia apenas uma aceitação formal do Protestantismo, no reinado de Eduardo VI (1547-1553), nem depois do terror de Maria a “Sanguinária”, pelo Ato de Uniformidade de Elizabeth em 1559. Mais apropriadamente, o reinado de Elizabeth presenciou o emergir do movimento Puritano dentro do Protestantismo, e a força motriz desse movimento era a convicção de que a completa autoridade da Palavra de Deus ainda não havia sido aceita pela Igreja Inglesa.

A luta que se seguiu nos próximos cem anos não foi uma simples tentativa Puritana para assegurar alterações em vestimentas clericais, ou cerimônias religiosas ou aspectos externos da ordem da igreja, mas foi muito além disso. Os Puritanos reivindicaram que as Escrituras não são apenas a completa revelação do Evangelho de Cristo, mas que elas contém todas as informações necessárias para o governo e adoração em Sua Igreja. Eles acreditavam que esse era um fundamental: assim como nenhum ensinamento espiritual pode ser aceito a menos que seja encontrado nas Escrituras, também nenhum significado espiritual pode ser adicionado à Igreja além daquele que está autorizado pela Palavra Escrita. Por este princípio – O Princípio Regulador das Escrituras, como foi chamado posteriormente – asseguravam estarem presos ao ensinamento contido na Bíblia e à sua própria autoridade. Com base nesse princípio, eles estabeleceram sua política de Reforma da igreja em duas proposições principais:

Qualquer coisa introduzida na Igreja sem sanção escriturística é ilegal.

A forma da Igreja visível no Novo Testamento está permanentemente ligada a todas as gerações de cristãos.

Contra essas proposições os defensores da Igreja Elizabetana, notavelmente John Whitgift (c. 1530-1604) e Richard Hooker (c. 1554-1600), formularam duas contra-proposições:

  1. Eles alegavam que os Puritanos haviam entendido mal a intenção das Escrituras: a Bíblia faz obrigatórios todos os aspectos relacionados à salvação, enquanto permite liberdade à Igreja para introduzir “coisas indiferentes” (ADIAPHORA é o termo técnico), isto é, coisas não proibidas pelas Escrituras e que a prudência cristã entenda como benéfico ao governo e à adoração da Igreja, em certas circunstâncias.
  2. Eles negavam que o padrão da Igreja do Novo Testamento fosse permanentemente obrigatório posto que a informação dada pelas Escrituras nesse assunto não é suficiente, como os Puritanos reivindicavam, mas incompleta e não decisiva, sugerindo que Cristo não intencionou que qualquer forma de governo na Igreja fosse de autoridade Divina.

Observações Preliminares:

Antes de voltarmos nossa atenção para o que está envolvido nessas conflitantes afirmações farei alguns comentários preliminares:

  1.   O ensino Puritano do Princípio Regulador das Escrituras, na Inglaterra, é quase tão obsoleto quanto o ensino de que o planeta Terra é achatado. Desde os últimos quarenta anos do século XVII quando a idéia de governo da Igreja por “direito divino” foi rejeitado com desdém, desprezada e excluída de julgamento, evangélicos e não evangélicos concordavam em considerar a posição Puritana como simplória e intangível. As únicas pessoas que o recente Relatório Metodista-Anglicano relacionou como os que apoiam a idéia de que “A Igreja só pode fazer aquilo que está explicitamente afirmado e comandado pelas Sagradas Escrituras”, são os Radicais da Reforma: Anabatistas e Puritanos do século XVII.2 Tudo o que precisamos dizer aqui, a respeito dessa atitude, é que ela não se baseia em qualquer refutação da posição Puritana. O que John Owen escreveu a Samuel Parker em 1669 continua verdadeiro. Parker, um firme defensor do Ato de Uniformidade de 1662, atacou o Princípio Regulador como “o alicerce de todo Puritanismo”, mas em resposta a seus argumentos, Owen declarou que Parker “não utilizou nenhum artifício que já não tenha sido utilizado mais de uma centena de vezes contra essa questão, todos mal sucedidos”. Owen cita o argumento principal de Parker: “Aquilo que as Escrituras não proíbem, elas permitem; e o que permitem não é ilegal; e o que não é ilegal pode ser feito legalmente. Essa mentira, eu confesso, tem-nos sido dita muitas e muitas vezes”, diz Owen, “mas ela já foi tantas vezes respondida que, por uma simples questão de raciocínio, pode se ver que ela é no seu todo, capciosa e sofismática”3. Mesmo depois de três séculos de retórica, se a questão do Serviço Puritano na Igreja fosse reaberta, encontraríamos justificativa para a abordagem de Owen.
  2. À primeira vista, pode parecer que o ensino Puritano nessa questão não tem relevância quanto a nossa situação contemporânea. Alguém poderia afirmar, “Qual o sentido de discutirmos a extensão da autoridade das Escrituras quando o que está sendo realmente questionado hoje é se a Bíblia tem qualquer autoridade afinal?”. A resposta Puritana a essa questão seria, que a abordagem sugere implicitamente sendo o homem como centro: a rejeição da inerrância da Bíblia pelo mundo moderno é um problema para os evangélicos, mas há um problema mais profundo, isto é, “porque já os favores de Deus já não se manifestam em nossas igrejas?”. À luz dessa questão não será irrelevante perguntar: “Até que ponto queria Deus que Sua Palavra fosse nosso único guia e regra? Estariam as Escrituras regulando a vida de nossas Igrejas, hoje, na amplitude almejante por Cristo?”. Não é impossível que estejamos tão preocupados em defender as Escrituras que não estejamos tendo suficiente temor quanto à nossa própria falha na obediência da Palavra. A primeira dedução Puritana, partindo da sua crença de que as Escrituras são a voz de Deus, era que cada um é pessoalmente responsável ante Deus com respeito a tudo aquilo contido em Sua Palavra. “Enquanto temos a Palavra de Cristo para as coisas que devemos fazer ou recusar a fazer”, diz Henry Barrow, “não precisamos temer as ameaças de homens vãos e orgulhos; nem estarmos impressionados ante títulos e nomes de igrejas, sacramentos, etc. pois uma coisa é certa, não há igreja que possa nos desculpar pela quebra da Lei de Deus perante o grande Juiz”.4 Nós não resgataremos o sentido dessa citação até reexaminarmos nossa visão geral das Escrituras. Um estudo renovado do princípio regulativo no tempo atual não seria uma excursão teológica embolorada e azeda com problemas de uma era passada; na realidade, isto nos levaria a um confronto com o teste que a nossa cristandade moderna necessita, e levaria nossas mentes adiante, até aquele dia em que todos os atos, praticados através do nosso corpo, serão julgados pela regra ditada pelas Escrituras: “A nossa total pregação deve se à prova das Escrituras” diz Thomas Brooks, “ou nós e nossos atos devemos ser queimados juntos”. Os Puritanos nos mostram quão grande responsabilidade pessoal deve em seguida advir da convicção na infalibilidade das Escrituras.
  3. Outra razão pela qual esse assunto é relevante para nós é que nos força a considerar a linha divisória entre uma prática legal de expediência e um compromisso com o pecado; ou seja, qual é o ponto onde as Escrituras deixam de ser nosso único guia e passamos a definir novas formas e métodos, de acordo com as circunstâncias em que nos achamos? Estamos entrando numa era em que as tradições das igrejas estão sucumbindo, e experiências estão, cada dia mais, sendo praticadas em evangelismo, na adoração e nas formas de governo das igrejas.

Novas experiência em música, drama religioso, técnicas audio-visuais, tem sido praticads e algumas igrejas tem chegado ao ponto de substituir o sermão de domingo por filmes. A questão fundamental é, ATÉ QUE PONTO AS ESCRITURAS PERMITEM TAIS COISAS?. Não há desacordo quando ao fato de que o exercício da prudência, sabedoria e bom senso são responsabilidades dos cristãos; o desacordo entre nós e os Puritanos é que temos agido como se houvesse uma ampla área da prática da Igreja fora do escopo do Novo Testamento. Eles traçaram a linha divisória entre expediência legítima e desobediência em um ponto diferente daquele em que nós traçamos. Como evangélicos, temos sido inclinados a crer que onde quer que nossas falhas estejam, elas não estão em nossa desobediência às Escrituras. Mas se o ensinamento Puritano do Princípio estiver correto, isto porá nossa conduta em outro foco.

Definindo “Essenciais e Não Essenciais”:

 Antes de deixarmos essas observações, uma questão adicional precisa ser considerada. Será visto que se o ensinamento Puritano do Princípio Regulador for considerado proeminente, então inevitavelmente a questão de nossa prática sobre ordem, governo e adoração na igreja assume uma importância ímpar no meio evangélico. Poderemos, portanto, estar predispostos a concluir, com Whitgift, que os Puritanos, chamando atenção para assuntos externos e  questões “não essenciais à salvação”, não estavam corretamente fazendo distinção entre pontos fundamentais (os Evangelhos e as doutrinas da fé) e secundários. Whitgift disse a Cartwright que a tendência da política Puritana era de provocar “a derrota do Evangelho através de contendas sobre questões externos (…). Certamente, tratando-se de questões “necessárias à salvação” então há justa causa em quebrar a paz da igreja por elas; mas se são questões de menor peso, então você não poderá desculpar-se a si mesmo ou a eles”[1]. De modo semelhante, Bishop Hel declarou que era “mil vezes melhor engolir uma cerimônia do que despedaçar a igreja”.

Richard Hooker usou essa mesma distinção entre essenciais e não essenciais em resposta à acusação Puritana de que o fundamento da Igreja Elizabetana não aceitava a autoridade das Escrituras na sua totalidade. Ele afirmava que rejeitar o ponto de vista Puritano de autoridade bíblica de modo algum negava “a absoluta perfeição das Escrituras”, porque Deus concebeu as Escrituras para serem “uma completa instrução em todas as coisas necessárias à salvação… assim as Escrituras, sim, cada sentença ali, é perfeita, não carecendo de nenhum requisito ao propósito para o qual Deus a deliberou”.[2] Coisas tais como cerimônias, ordem, disciplina, e governo, Whitgift e Hooker defendiam, são à parte do Evangelho e das questões de fé. Por alegar a necessidade da autoridade das Escrituras para as questões não necessárias à a salvação os Puritanos eram denunciados de esticarem e deturparem a Bíblia para cobrir áreas nas quais Deus nunca pretendeu dar instruções definitivas.

Podemos apenas brevemente indicar a natureza da resposta Puritana a tal acusação. Eles asseguravam que o único fundamento sobre o qual a salvação de pecadores depende é na verdade concernente à pessoa e obra de Jesus Cristo (I Coríntios 3.11). Contudo há também um número de outras verdades explicitamente reveladas nas Escrituras as quais não podem ser classificadas estritamente como “necessárias à salvação”, pois um homem pode não compreendê-las ou se equivocar a respeito delas e ainda assim ser salvo. “Não tenho dúvida que muitos dos pais da Igreja Grega” afirma Cartwright, “os quais foram grandes patronos do livre-arbítrio (pelo menos até onde vão suas palavras) são salvos, mantendo-se firmes no fundamento da fé o qual é Cristo”[3]. Whitgift luta para evitar isto (repreendendo Cartwright por “falar tão perigosamente”) porque o argumento derruba sua premissa de que as Escrituras somente falam claramente naquilo que é “necessário para salvação”. Como um ortodoxo protestante elizabetano ele tem que concordar que as Escrituras são decisivamente contra o livre-arbítrio. Assim sendo, se Cartwright está certo, a Bíblia fala autoritativamente sobre uma questão “não-essencial” – não essencial, isto é, de acordo com a definição de Whitgift, explicitamente, não necessário para a salvação. Whitgift não pode aceitar esta conclusão e, ao invés disso, responde que se uma pessoa morre sustentando o livre-arbítrio ela não pode ser salva.

 Para os Puritanos, Whitgift estava tentando manter uma distinção que não poderia ser mantida. E eles consideraram o hábito de seus oponentes de discriminar entre essenciais e não-essenciais um procedimento perigoso. Perigoso, não porque pretendiam exaltar Cristo e o Evangelho ao lugar supremo, mas porque falhavam ao enfatizar que o Novo Testamento não oferece segurança àqueles que reconhecidamente negligenciam ao menor dos mandamentos de Cristo.

Samuel Rutherford diz:

“Nós frisamos a imutabilidade das leis de Cristo, tanto nas questões menores como nas maiores, posto que são os mandamentos de Cristo, o maior ou o menor, com respeito ao assunto intrínseco, tal como o uso de água no batismo, ou batizar é menos importante do que pregar a Cristo, e crer nele, I Coríntios 1.17. Contudo eles são ambos importantes, no que tange a autoridade de Cristo o Comandante, Mateus 28.18,19. E é muita ousadia alterar qualquer mandamento de Cristo, por menor que seja a questão, pois ele reside na nossa consciência e não pode ser de maior ou menor importância… mas por nos prender à autoridade do doador da Lei: assim, a autoridade de Deus é a mesma quando diz, Não adorarás falsos deuses, e quando diz, não acrescentarás de ti mesmo nem um anel ou pino à arca, tabernáculo, templo, sim, pois violar um desses mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, faz da pessoa a menor no reino dos céus, Mateus 5.18”.[4]

É verdade que uma pessoa salva pela graça pode, através de circunstâncias e ensinamento errado, não ser capaz de ver tudo o que as Escrituras requerem relativamente à Igreja; os Puritanos nunca consideraram pontos de vista corretos sobre a constituição da Igreja como se fossem um teste da graça salvadora. Mas o seu reconhecimento de que nem todas as verdades reveladas são verdades fundamentais sem as quais ninguém é salvo, não significa, com aponta Henry Barrow, seja permitido fazer “algumas doutrinas e algumas partes do Testamento de Cristo fundamentais e substanciais, outras acidentais e como tal podendo ser alterados ou violadas sem prejuízo ou dano para a alma”.[5] O fato de que uma pessoa possa ser incompleta em conhecimento e prática, e ainda assim ser salva por permanecer no fundamento que é Cristo, não dá permissão para dividir as Escrituras em essenciais e não-essenciais – pondo as regras concernentes à igreja visível na segunda categoria e assim podendo ser deixadas de lado.

John Robinson, o pastor da Pilgrim Fathers, faz a seguinte observação a respeito das verdades essenciais:

“Por mais que reconheça a diferenciação de verdades, e que algumas são mais e outras menos importantes, desejo maior consciência na aplicação dessa distinção. Pois embora os ministros e o povo na Igreja Inglesa estejam sujeitos à obediência ao Novo Testamento por leis civis e eclesiásticas, isto se torna um anestésico para toda aflição pois crêem ter a substância do Evangelho, a doutrina da fé, todas as verdades fundamentais e tudo o mais que é necessário para a salvação. Na defesa de que (como é feito) há três perversidades:

  1.  ‘Por isto os homens não apenas se empenham, quando muito, em curar Babel (isto é, a igreja estabelecida), mas até mesmo em fazer Babel crer que ela nem necessita ser curada: as suas feridas não são nem mortais nem perigosas’.
  2. ‘Isto tende a aviltar e tornar de pouco impulso ou importância muitas das verdades e ordenanças do Senhor’.
  3.  ‘A alegação feita pelos ministros, de que eles detêm e desfrutam todas as verdades fundamentais, e tudo o mais necessário para a salvação, considerando sua finalidade, isto é, a suspensão por parte do povo do esforço para obediência e confissão da vontade de Deus e as ordenanças de Cristo, são ambas danosas ao crescimento e obediência do povo de Deus’.

‘…Ela insinua que é suficiente ao homem servir a Deus até o ponto de obter salvação, mesmo com desobediência de grande parte da revelada vontade de Deus: ocasionando o povo a servi-Lo apenas, ou principalmente por uma paga ou retribuição, como fazem os hipócritas. Como se uma criança fosse ensinada a honrar e agradar seu pai até ponto de obter sua herança, mas não ao ponto de se, preocupar em dar a ele qualquer honra ou serviço posterior.'[6]

Foi uma deturpação de posição Puritana que fez Whitgift  afirmar que Cartwright considerava “governo externo mais precioso do que as doutrinas da fé”.[7] A história do evangelismo Puritano Elizabetano fez tal acusação ridícula. O que os Puritanos disseram foi que a ordem correta da Igreja não pode ser desconectada do Evangelho: “Deus não apenas ordenou que a Palavra fosse pregada, mas também determinou em que ordem e por quem ela seria pregada”.[8] Eles estavam convencidos de que quando a ordem de Deus é violada o Evangelho em si mesmo será brevemente pervertido. Portanto Tyndale afirma que foi quando os bispos e a hierarquia se levantaram na Igreja que “o arado se enviesou; a Escritura se tornou obscura; Cristo não mais era percebido”.[9] Por outro lado, foi quando a Igreja se manteve próxima à Palavra que o Evangelho brilhou em sua pureza e poder. Rutherford, fazendo uma retrospectiva em setenta anos de luta para assegurar uma melhor ordem na igreja visível, não hesitou em escrever em 1646: “Considerem se milhares a mais não teriam sido convertidos se o governo de Cristo tivesse sido estabelecido como o Sr. Cartwright, Sr. Udal, Sr. Deering, e os demais santos suplicaram ao Paralamento”

Exposição Puritana da “Adiaphora” (Coisas Indiferentes):

A principal força da causa de Ridley e Cranmer contra o Princípio Regulador reside na alegação de que coisas tais como vestimentas e posturas na comunhão não são nem boas nem más em si mesma, mas indiferentes, e, portanto, se a Igreja determinar que as vestimentas e o ajoelhar-se são prudentes e úteis, então os crentes devem se submeter a essas determinações. Eles arrazoavam que há muitas coisas que não podem ser resolvidas pelas Escrituras, por exemplo, em que lugares os cristãos devem se reunir, a que tempo, qual a freqüência com que a Santa Ceia deve ser observada e assim por diante, e, portanto, deve ser legal para a Igreja determinar o que não pode ser determinado pelas Escrituras. A resposta Puritana a essa posição era a seguinte: Eles nunca afirmaram que a Igreja não podia fazer nada que não estivesse nas Escrituras. Isto era uma caricatura do Puritanismo que afirmava que eles procuravam por cada detalhe no Novo Testamento. O que eles afirmavam era que nada deveria ser feito à parte (distinto de uma circunstância)[10] da adoração e nada de significado espiritual deveria ser adicionado ao governo da Igreja a menos que aquilo fosse prescrito pelas Escrituras ou autorizado por justa inferência. A área na qual podemos determinar coisas por nós mesmos é a área de circunstâncias naturais. Coisas indiferentes, eles afirmavam, não são em si mesmas coisas morais ou espirituais, mas elas são coisas naturais como físicas ou pertinentes à vida humana ordinária. Por exemplo, não é parte da adoração o lugar onde a adoração ocorre, ou o seu tempo de duração ou de que material é feito o púlpito ou o cálice usado na Santa Ceia. Ou no domínio do governo da Igreja, não é uma coisa moral a nacionalidade do ministro da Igreja, mas é uma coisa moral que ele seja um oficial tal como Cristo tem apontado à Sua Igreja. Em uma área nós necessitamos a autorização da Escrituras, na outra não.

Assim, em 1547 quando John Winram, sub-prior de ST. Andrew, exclamou to John Knox, “vós nos obrigaríeis a tal restrição, que nós não poderíamos fazer nada sem a expressa Palavra de Deus? O que aconteceria se eu pedisse de beber? Pensais vós que eu estaria pecando? E ainda assim eu não teria a Palavra de Deus para apoiar-me”.

Ao que o reformador Escocês respondeu: “admiro-me de comparares coisas profanas e sagradas tão indiscriminadamente… Uma carne eu posso comer, outra posso recusar, e isso sem escrúpulo de consciência. Eu posso trocar uma por outra tão freqüentemente quanto eu queira. Poderíamos fazer o mesmo em assuntos de religião? Podemos descartar como quisermos e reter como quisermos? Se me lembro bem, Moisés, em nome de Deus, disse ao povo de Israel, ‘Tudo o que o Senhor teu Deus te ordenar, isto farás ao Senhor teu Deus: não acrescenteis nada; não subtraiais nada’. Por esta regra eu penso que a Igreja de Cristo discernirá a Religião de Deus, e não por aquilo que pareça bom aos seus próprios olhos”[11].

 Apesar disto os oponentes dos Puritanos estavam continuamente tomando o argumento de Winram – “As Escrituras são muito genéricas para regulamentar tudo, portanto a exigência de autorização das Escrituras é absurda” – e em 1646 Rutherford estava ainda tendo que repetir que eles tinham sempre reconhecido uma área de coisas comuns, não pertencentes à esfera espiritual, mas à vida natural ordinária (comida, sono, etc.) que não requer preceito escriturístico para sua prática: “tempo e lugar, nome, país, forma, figura, hábitos ou paramentos para afastar … as injúrias dos céus, coisas estas nunca ordenadas, nunca proibidas por Deus, e portanto a mudança dessas circunstâncias não alteram os mandamentos de Deus, nós nunca promovemos circunstâncias, como tais à esfera de moral”[12]

Essas são todas as coisas genuinamente indiferentes e que devem ser determinadas por sabedoria e bom senso. Isto nos leva ao núcleo de controvérsia sobre coisas indiferentes. Baseados na distinção feita acima, os Puritanos foram adiante e mostraram que qualquer prática na Igreja que se proponha a ser indiferente (e, portanto, não requerendo autorização das Escrituras) só deve ser reconhecida como tal se atender a certas condições.

George Gillespie fornece o seguinte: [13]

1) “Ela deve ser apenas uma circunstância de adoração divina, não uma parte substancial da mesma, não uma cerimônia sacra, significante e eficaz”.

Em outras palavras se um ministro, como Hooper, pregasse usando uma capa ordinária de mercador, aquilo era uma coisa natural e indiferente, mas se a vestimenta do ministro tivesse o propósito de conduzir a algum significado espiritual (tal como a sobrepeliz branca como símbolo de pureza) então, deixaria de ser indiferente. Isto explica porque a controvérsia sobre vestimentas e outras cerimônias no reinado de Edward esteve tão ligada ao princípio regulador. O Livro de Orações da Igreja Anglicana reivindicava algum valor e significado religioso para cartas cerimônias que, embora não contidas nas Escrituras, “eram aptas para estimular a mente embotada do homem à lembrança de seus deveres para com Deus, por algum significado notável e especial pelo qual ele poderia ser edificado”. Aos Puritanos, essa adição de coisas de supostos valores espirituais na Igreja não poderia ser justificada sob a alegação de que eram coisas indiferentes. Do mesmo modo (eles afirmavam que enquanto a Igreja pode legalmente determinar o tempo e lugar mais convenientes para reuniões, ela não tem autoridade para revestir de importância religiosa certos dias ou estações, nem atribuir qualquer bênção espiritual a prédios ou igrejas).

2) “Aquilo que a Igreja pode prescrever através de suas leis e ordenanças, como algo deixado à sua própria determinação, e que seja não determinado pelas Escrituras”. Qualquer coisa ordenada ou proibida nas Escrituras, seja por preceito ou exemplo, ou que possa ser justamente inferida delas, não pode ser indiferente”.

3) “Se a Igreja prescrever qualquer coisa legalmente… suas ordenanças deverão ser acompanhadas de boa razão e justificação dadas para a satisfação de consciências sensíveis. Por ser uma coisa é em si mesma indiferente isto não significa que a Igreja pode ordená-la à parte de qualquer consideração das Escrituras”. “Assim como não podemos usar qualquer, coisa indiferente ao nosso bel prazer”, diz Gillespie, referindo-se ao cristão individual, “também não pode a Igreja, à sua própria vontade ou prazer, ordenar o uso da mesma; mas como nossa prática, as injunções da Igreja devem ser determinadas e enquadradas de acordo com as regras dadas na Palavra de Deus; porque aquelas coisas que em sua natureza são indiferentes, nunca são indiferentes quanto ao uso, isto porque o uso das mesmas ou será de acordo com a Palavra de Deus, e portanto apropriado, ou não, e, portanto, será ilícito”.[14]   

Essas regras gerais governando ações e coisas não tão especificamente prescritas nas Escrituras são estabelecidas assim pelo mesmo escritor:                               

a) Todas as ações particulares devem referir-se à glória de Deus (I Coríntios 10.31, Romanos 14.7,8).                            

b) Nenhuma ação, embora legítima em si mesma, deve ser praticada se puder vir a ser uma pedra de tropeço ou trazer possível ocasião de dano espiritual à outros (Romanos 14.21; I Coríntios 10.23); especificamente, “como no inteiro curso de nossa vida, especialmente no governo da Igreja nós não devemos fazer nada (por mais indiferente que seja em si mesmo) que não seja proveitoso para a edificação, I Coríntios 14.26, ‘Seja tudo feito para edificação’. De cujo preceito Pareus inferiu que nada deveria ser feito na igreja que não fosse claramente para a utilidade de todos e de cada um”.

c) Não devemos nunca agir contrariamente à paz e pureza de nossa consciência, pois embora uma coisa possa ser indiferente, ainda assim se nossa consciência julgá-la ilícita, nós não podemos licitamente praticá-la (Romanos 14.14).

Os Puritanos escreveram muito sobre a definição de coisas indiferentes.[15] As regras escriturísticas que governam seu uso e o volume de material que eles deixaram sobre esse assunto sugerem que eles não subestimaram a questão ou evitaram suas dificuldades. Adiaphora tornou-se um tumultuado centro de controvérsia porque toda a força do caso contra a posição Puritana residia no argumento de que, enquanto a Igreja não ordenasse o que fosse proibido pelas Escrituras, ela poderia regular sua adoração e governo por regras gerais tais como em I Coríntios 14.40. “Que tudo seja feito decentemente e em ordem”. Assim, era dito que vestimentas e episcopado eram coisas indiferentes (não sendo expressamente proibidas pela Palavra) e, portanto, autorizadas se eles o fizessem pela regra geral de promoção da “ordem”. Os Puritanos eram conseqüentemente forçados a mostrar em detalhes pelas Escrituras que os escritores do Novo Testamento nunca classificaram qualquer coisa de significância espiritual como adiaphora e que as “regras gerais” contidas nos textos acima referidos não implicavam que no âmbito total de sua vida a Igreja teria apenas princípios gerais a seguir. Não concordariam com o “espírito” de que ela seria livre para implementar por adições e alterações tais assuntos espirituais conforme julgasse apropriado. Ridley e Whitgift supunham que este seria o significado das Escrituras porque de outro modo a vida da Igreja seria uma impossibilidade — várias coisas sendo necessárias para sua continuidade as quais as Escrituras não especificam, por exemplo, a provisão de prédios adequados. A resposta Puritana, como vimos, era de que as regras gerais nas Escrituras dão ampla instrução sobre assuntos circunstanciais e coisas indiferentes as quais somos livres para ordenar, mas isto é bem diferente de prover uma sanção geral para a preservação de tais coisas.

Cartwright diz:

“Nós não negamos, mas certas coisas são deixadas para a ordem da Igreja, porque elas são da natureza daquelas que variam com o tempo, lugar, pessoas, e outras circunstâncias, e assim não poderiam ser estabelecidas uma vez e para sempre. Assim, são deixadas para a ordem da Igreja, pois isto não vai contra as regras ditas anteriormente.* Mas a partir daí para se dizer que certas coisas são deixadas por conta da Igreja, como a criação de um novo ministério na pessoa de um arcebispo; alterando um ministério que é ordenado, fazendo um bispo ou pastor sem uma igreja ou rebanho; fazer um diácono sem indicar-lhe a igreja de onde seria diácono e onde poderia exercer sua função de suprir as necessidades dos pobres; abolir o nome e ofício de presbítero; e mais isso e aquilo…; faça isso,  siga aquilo, porque a Igreja tem poder para ordenar certas coisas, portanto tem poder para fazer o que quer com o que Deus tem ordenado e estabelecido?”

Referencias:

[1] John Whitgift, Works (Parker Society), vol. I, p. 38, p. 41.

[2] Richard Hooker, Works (5th edit., 1865) vol.I, p. 334.

[3] Whitgift, vol. I, p. 188. Cartwright’s Firs Reply To Whitgift is printed with Whitgift’s response. The Puritan leader’s voluminous Second Reply has never been reprinted since the sixteenth century; some brief extracts from it are given in the Parker Soc. Edition of Whitgift’s work.

[4] Samuel Rutherford, The Divine Right of Church-Government, 1646, pp. 19-20.

[5] Op. Cit., p. 187.

[6] John Robinson, Works, 1851, vol. 2, pp. 476-478.

[7] Op. Cit., I, p. 187

[8] Cartwright in Whitgift, op. Cit., 2, p. 89.

[9] Op. Cit.; p. 257

[10] See Owen, 13, pp.463-4, 469,481.

[11] John Knox, History of The Reformation in Scotland (Edited by William Croft Dickinson, 1949), vol. I, p.89.

[12] Rutherford, op. Cit., p.63.

[13] George Gillespie, A Dispute Against the English Popish Ceremonies, printed in Gillespie’s Works, vol. I, 1846, cf. pp.130-31. A helpful commentary on Gillespie’s conditions will be found in James Bannerman, The Church of Christ, vol. I, pp.355-57

[14] Op. Cit., 7.

[15] Besides major works like Gillespie’s, a number of shorter pieces on the subject appeared such as the anonymous treatise of the Nature and Use of Things Indifferent (Dr.Williams Libary 12.55.3) and Daniel Cawdry’s consideration of The Cases Concerning Things Indifferent in Religious Worship, 1663.

* Cartwright havia pouco antes listado as regras gerais governando o uso de adiaphora, substancialmente as mesmas que Gillespie’s citou acima. Elas devem: a) não ofender nada, especialmente à Igreja de Deus; b) ser feitas em ordem e decência; c) ser feita para edificação; d) para a Glória de Deus.