Rev. Brian Schwertley

Outro ofício crucial para o bem-estar da igreja é o ofício de presbítero regente. Um presbítero regente tem o dom de liderança, governo ou administração da igreja. 

Esta designação aparece pela primeira vez como um ofício do Novo Testamento em Atos 11:30, quando o dinheiro levantado para os irmãos na Judéia é enviado aos presbíteros. Depois Lucas nos informa que Paulo e Barnabé “designaram presbíteros em cada igreja” (At. 14:23). Que o termo presbítero é um ofício distinto na igreja do Novo Testamento fica evidente pelas seguintes passagens: Paulo diz em Romanos 12:8 (quando discutindo os dons na igreja) “aquele que preside, [deve presidir] com diligência.” Em 1 Coríntios 12:8 o apóstolo diz: “A uns estabeleceu Deus na igreja… governos.” (1 Cor. 12:28). Em 1 Timóteo 5:17 lemos: “Os presbíteros que presidem bem devem ser considerados digno de dobrada honra…” Em 1 Tessalonicenses 5:12-13 Paulo urge os irmãos, “a reconhecer aqueles que trabalham entre vós no Senhor e vos admoestam, e os tenhais com amor em máxima consideração por causa do trabalho que realizam.” 

Pode-se aprender muito sobre o presbítero regente pelo título e denominação deste ofício. O termo administração (kuberneseis) traduzido como “governador” (KJV) era usado na antiga literatura grega dos governadores políticos. O substantivo pessoal cognato relacionado desta palavra é usado na Escritura para descrever os homens responsáveis por guiar um navio (i.e., um “mestre de navio” ou “piloto”; cf. At. 27:11; Ap. 18:17). “Esse substantivo ocorre três vezes na Septuaginta [Pv. 1:5; 11:14; 24:6], onde ele carrega a idéia verbal de dar ‘direção’ a alguém.” 

O termo presbítero (proesis — 1 Tm. 5:17; 1 Tm. 5:12; Rm 12:8 “Aquele que preside” — ho proistamenos) se refere a “alguém que está à frente,” aquele que lidera. Este termo é também usado por antigos autores gregos para descrever os governadores das cidades, os cabeças do exército e os que regem os reinos. O regente da igreja é alguém que exerce autoridade na congregação. 

A palavra ancião ou presbítero (presbuteros, cf. At. 14:23; 15:2-4; 20:17; 1 Tm. 5:17; Tt. 1:51; 1 Pe. 5:1) se refere aos homens que são espiritualmente maduros para reger ou exercer julgamento na igreja. Este termo é tomado do Velho Testamento onde se refere à maturidade (i.e., mais velho, a palavra hebraica para presbítero está relacionada à palavra para barba), homens adultos “que se reúnem em assembléia popular, ou um tipo de concílio em cada cidade.”  

A respeito do ancião do Velho Testamento, F. B. Huey, Jr., escreve: 

“Os anciãos serviam em várias áreas. A função principal era servir como juiz nas disputas ou fazer justiça quando se assentavam nos portões da cidade. (Dt. 22:15). Os profetas exigiam que o respeito pela justiça nos portões fosse mostrado (Amós 5:10-12; Zc. 8:16) e falavam contra os anciãos terem se corrompido em sua administração da justiça. Como membros do que equivale a um tribunal popular, os anciãos não suportavam falsa testemunha, nem aceitavam presentes, ou seguiam a maioria no desafio da justiça. Sua responsabilidade era condenar o culpado e absolver o inocente. Cada cidade tinha seus próprios anciãos (Dt. 19:12) que determinavam se um homem deveria ser vingado por morte, e privado assim da proteção das cidades de refúgio. Eles determinavam se um filho rebelde deveria ser apedrejado até a morte e eles participavam na execução da sentença (21:18-21). Eles também decidiam a validade da acusação de um marido de que sua noiva não era virgem (22:15). Eles resolviam casos relativos ao matrimônio do Levirato, quando um homem não queria tomar a esposa de seu irmão falecido (25:7-10), e serviam como testemunhas a transações comerciais (Rute 4:4). Os anciãos também serviam como líderes militares (Js. 8:10; 1 Sm. 4:3). Eles estavam envolvidos na seleção dos reis da nação. Eles exigiram que Samuel designasse para eles o primeiro rei (8:4,5) e participaram na unção de Davi como rei sobre toda Israel após a morte de Saul (2 Sm. 3:17; 5:3). É bastante provável que os anciãos se reuniram em Siquém após a morte de Salomão para receber certas garantias de Roboão antes de reconhecê-lo como rei. Aparentemente eles não reconheceram o direito de sucessão imediata por herança (1 reis 12). Quando Jezabel arquitetou a morte de Nabote, ela escreveu aos nobres e anciões para providenciar falsa testemunha a fim de que Nabote pudesse ser apedrejado até a morte (1 Re. 21:8-11). Pela sábia deliberação dos anciãos, a vida de Jeremias foi poupada por memória das profecias de Miquéias (Jr. 26:16-19). Eles foram incluídos entre aqueles que foram levados para o exílio (29:1; Ez. 8:1).”   

A diferença dos anciãos do Novo Testamento para os anciãos das portas [da cidade] do Velho Testamento é que eles formam um tribunal estritamente eclesiástico. Eles só podem omitir julgamento sobre os membros na igreja, e só podem impor sansões espirituais (e.g., excluir da Ceia do Senhor, excomungar). Se alguém na igreja for culpado de um sério crime, os presbíteros serão obrigados a remeter tal pessoa ao magistrado civil para ser punida. 

Os presbíteros também são chamados de “bispos” (episkopoi; e.g., veja Fp. 1:1, sun episkopois — “com os bispos”). A palavra se refere a um aspecto crucial da obra dos presbíteros que é cuidar dos assuntos espirituais da congregação. Com relação ao antigo uso dessa palavra Peter T. O’Brien escreve: “Episkopos no grego clássico (do período homérico) e no da Septuaginta significa um ‘bispo,’ e era usado para descrever uma deidade (cf. Jó 20:29) como a que guarda um país ou povo. O título era também dado aos homens que ocupavam posições de responsabilidade no estado, incluindo aqueles com funções de juiz, conselheiro, tesoureiro, e estrategista militar, ou aqueles que eram bispos de comunidades religiosas, tais como funcionários do templo (cf. Nm. 4:16; 31;14; Jz. 29:8, etc.). Esta única palavra descreve uma variedade de ofícios e funções, embora a noção de ‘supervisionar’ pareça ter sido comum a todas elas. No Qumran o ‘vidente’ ou ‘supervisor’ (mebaqqer) era considerado como um pastor e pai espiritual da comunidade. Embora não fosse um sacerdote, ele conhecia a lei e era responsável por todas as decisões acerca do ‘acampamento’ e de todos os membros.” Como os termos examinados anteriormente, a palavra bispo comunica liderança, lei, vigilância, governo e supervisão. 

Há uma série de fatos que precisam ser percebidos com relação a este ofício. Primeiro, os presbíteros da igreja regem de várias formas. Eles conduzem pelo bom exemplo, pelo conselho (e.g., palavras de sabedoria, alerta, repreensão, encorajamento, etc.), e se reunindo e tomando decisões como um tribunal eclesiástico. 

Segundo, os presbíteros, juntamente com o pastor, tomam importantes decisões com respeito à disciplina quando se encontram como em um tribunal. Quando nosso Senhor discutiu a disciplina em Mateus 18:15-20, Ele fez alusão à lei das duas testemunhas de Deuteronômio 17:6 e 19:15 e se referiu à autoridade de ligar e desligar do tribunal da igreja (v.18). “Os ‘dois ou três’ reunidos no nome de Cristo para julgamento de uma ofensa vã, no costume judeu, muito naturalmente são presbíteros. Quais assuntos são trazidos para julgamento da ‘assembléia,’ serão determinados não pelo voto do povo, mas por uma sessão de presbíteros do povo, executando o julgamento perante Deus e o povo (e.g., Dt. 19:17).” Em 1 Coríntios 6:1-6 Paulo ensina que as disputas na igreja entre irmãos devem ser resolvidas dentro da igreja. De fato, ele diz que é vergonhoso levar questões perante os pagãos. “Ele assume que os santos podem ser escolhidos para julgar tais assuntos.” “Não há um sábio entre vós, nem um só, que possa julgar no meio da irmandade” (1 Co. 6:5)! Os presbíteros (como suas correspondentes no Velho Testamento) tomam posição de juízes. Eles regem aplicando a lei da palavra de Deus a situações específicas. 

Terceiro, o presbitério sempre funciona judicialmente como uma pluralidade (Mt. 18:29; At. 15:6; 1 Tm. 4:14; etc.). Por que a Escritura requer uma pluralidade de governadores da igreja ao invés do governo de um só homem (e.g., O Bispo Episcopal ou o pastor Batista)? A resposta é simples, porém profunda. Porque o crente permanece em pecado e tem um conhecimento finito, um homem não pode ser confiado sozinho a uma tarefa tão importante. Há grande sabedoria em uma pluralidade de homens piedosos. “Não havendo conselho, cai o povo; mas na multidão de conselheiros há segurança” (Pv. 11:14). Uma pluralidade de homens piedosos maduros ajuda a proteger a igreja contra o egocentrismo, a arbitrariedade, e a tendência ditatorial pecaminosa entre a liderança. Com uma pluralidade de presbíteros, muito conhecimento e sabedoria podem ser trazidos para contornar uma situação. Aquilo que um homem sozinho talvez não sabia, pode ser do conhecimento de outros. Assim, com uma pluralidade de presbíteros, podem freqüentemente ser discernidos e evitados erros de julgamento e as interpretações e aplicações erradas da escritura. Além do que, uma pluralidade de presbíteros reúne várias experiências pessoais de uma série de homens. O que pode ser novo e confuso a um presbítero, talvez já tenha sido tratado extensivamente por um outro. Embora qualquer sistema de governo de igreja possa ser abusado por homens pecadores, o sistema Presbiteriano e Reformado de governo por meio de uma pluralidade de presbíteros é o menos sujeito a abusos em razão de sua aprovação bíblica e equilíbrio. 

Quarto, os presbíteros regentes são representantes do povo na igreja. Como representantes eles tem de agir em nome de outros. Obviamente, nem todo aquele que é um cristão e um membro de uma igreja local é qualificado para lidar com casos judiciais complexos e pesadas controvérsias doutrinárias. Portanto, homens qualificados são escolhidos pela congregação para exercer autoridade por toda a igreja.

 Hodge escreve:

“O próprio fato de que esses deveres e poderes são destinados a uma certa classe de oficiais, prova que eles não devem ser exercidos pelas próprias pessoas. Porém, enquanto as Escrituras claramente ensinam que tais poderes são concedidos a uma classe distinta de oficiais do povo, elas também ensinam que o povo tem o direito de determinar quem serão eles, e tomar parte com eles no governo da igreja. E este direito que eles exercem em parte pessoalmente, como na eleição dos regentes da igreja, em parte por seus representantes, que se apresentam em seu nome em todas os tribunais da igreja, é o de deliberar e votar em todas as questões que possam aparecer perante eles.”

Os ministros presbiterianos de Londres concordam:

“Quão vão será dar de forma igual à multidão inteira este poder que é dado aos oficiais quando o todo não tem dons e habilidades iguais para executá-las. Se desigual, então este poder é derivado dos guias da igreja, nem mais nem menos do que da multidão dos fiéis. Se menos, então quão impróprios terão sido todos aqueles nomes de Regente e Governador impostos sobre os oficiais, que em nenhum lugar da Bíblia são dados à multidão: [tais] como Pastores (Ef. 4:8, 11), Presbíteros (1 Tm. 5:17), Bispos (Atos 20:28), Guias (Hb. 13:7, 17, 22). Neste último verso eles são contrapostos aos Santos. Os guias da igreja e os santos guiados compõem uma igreja orgânica visível. Presidem no Senhor (1 Ts. 5:12; Rm. 12:8) e os presbíteros que presidem bem (1 Tm 5:17), Governadores (1 Co. 12:28) e Mordomos (1 Co. 4:1-2) — todos estes títulos têm poder e governo gravado em seus próprios frontispícios. Há os homens que lideram ou regem em prol da igreja inteira e há aqueles que se submetem a essa liderança no Senhor. ”

Quinto, a autoridade dos governadores da igreja (bem como dos pastores) deriva de Jesus Cristo e Sua Palavra — a Bíblia. Como homens sujeitos a Cristo, a autoridade deles é puramente ministerial e declarativa. Cada parte do conselho, ensino, admoestação, e governo (i.e., disciplina da igreja) deve estar firmada na Palavra de Deus. Em outras palavras, os presbíteros não possuem autoridade intrínseca. Eles não têm o direito bíblico de impor suas próprias idéias, pensamentos ou filosofias sobre o culto, a doutrina ou o governo da igreja. 

Têm ocorrido dois grandes abusos deste ofício através da história. Há muitos líderes de igreja que têm esperado obediência cega dos congregados, como se suas próprias palavras fossem lei. Essa visão se apóia sobre um entendimento antibíblico da autoridade na igreja; isto é, a visão de que os presbíteros devem ser obedecidos simplesmente em razão de sua posição e não porque seus direcionamentos estão firmados na Bíblia (e.g., Há igrejas carismáticas nas quais os presbíteros ordenaram que membros da igreja se casassem com determinada pessoa, ou trabalhassem num certo tipo de emprego, ou doassem seus carros, etc.). Esse tipo de abuso tem um fundo romanista e tirânico. “Ora, tirando proveito do ofício, os regentes da igreja têm perpetrado horrores indizíveis, escravizando as almas dos homens. Há aqueles que tem lutado mais para dominar a igreja do que os ditadores desejariam governar sobre os corpos e as fortunas dos homens; contudo, estes líderes de igreja desejam governar do mesmo modo as almas dos homens.”12 Tristemente, hoje muitos tribunais presbiterianos são culpados de reger tiranicamente quando lidam com casos de tribunal de forma pragmática ao invés de bíblica. Em outras palavras, os governadores da igreja tomam decisões baseados no que eles crêem servir melhor para a igreja ao invés de o quê a justiça bíblica requer. 

O outro grande abuso deste ofício tem sido a negligência ou recusa para cumprir sua responsabilidade como um governador da igreja. Em muitas igrejas não há nenhuma visitação familiar ou aconselhamento pessoal efetivo pelo conselho (i.e., o corpo de presbíteros). Também é muito comum para governadores da igreja hoje ignorar casos que necessitam da disciplina da igreja. Muitas pessoas nas igrejas buscam aconselhamento em organizações fora da igreja (para problemas matrimoniais, etc.) porque os presbíteros estão pouco dispostos ou são incapazes de aconselhamento eficaz. 

O outro grande abuso deste ofício tem sido a negligência ou recusa para cumprir sua responsabilidade como um governador da igreja. Em muitas igrejas não há nenhuma visitação familiar ou aconselhamento pessoal efetivo pelo conselho (i.e., o corpo de presbíteros). Também é muito comum para governadores da igreja hoje ignorar casos que necessitam da disciplina da igreja. Muitas pessoas nas igrejas buscam aconselhamento em organizações fora da igreja (para problemas matrimoniais, etc.) porque os presbíteros estão pouco dispostos ou são incapazes de aconselhamento eficaz.

 A tendência pecaminosa para ser negligente no dever do governo da igreja é provavelmente a razão principal por que Paulo diz que os governantes da igreja devem liderar com diligência (Rm. 12:8). Eles devem zelar continuamente pelas pessoas que estão debaixo dos seus cuidados (Hb. 13:17).

Barnhouse escreve:

“Essa palavra traduzida por ‘diligência’, originalmente continha a idéia de pressa. Conseqüentemente, a idéia de seriedade entrou no significado: seriedade no acompanhamento, atividade ou esforço. Em nosso contexto ela significa que se um homem tem um dom de liderança, ele deve se lançar a isto e dar do máximo de seu trabalho em prol das pessoas a quem ele lidera. Uma das primeiras regras do comando militar é que um oficial deve proteger seus homens como uma mãe cuida de seus filhos. Este princípio deve ser aplicado à liderança cristã. O líder deve estar a todo momento atento às necessidades daqueles que o seguem ao invés de ser relapso e descuidado, “o governador da igreja, corrigindo abusos, que previnem desordens, e na administração da disciplina, clama pela fidelidade e vigilância constante.”